26 fevereiro 2020

VIRADOURO | Campeã do Carnaval RJ de 2020

Olá Realezas,

A Viradouro foi campeã do Grupo Especial do Rio de Janeiro em 2020 e neste ano, a escola que abriu o desfile no dia 23 de fevereiro, domingo de carnaval, às 22h30. 

Eu fiquei impressionada com o desfile e decidi trazer para vocês algumas nada melhor do que entender direitinho a letra do samba-enredo da Viradouro para apreciar o desfile das campeãs e cantar junto com a escola. 
A letra homenageia As Ganhadeiras de Itapuã, um grupo musical formado por mulheres, crianças e alguns percussionistas que foi fundado em 2004, no bairro de Itapuã, em Salvador.


As Ganhadeiras de Itapuã cantam sobre uma das principais tradições da região, que vem desde a época colonial: as mulheres escravizadas que vendiam quitandas na praia ou trabalhavam como lavadeiras nas margens da Lagoa de Abaeté, na tentativa de arrecadar dinheiro para comprar a própria alforria. 

Tempos depois, com o fim da escravidão, mas ainda em uma sociedade marcada pelos resquícios da colonização, esses trabalhos se mantiveram como fonte de renda para as mulheres negras e se tornaram parte da identidade cultural de Itapuã. 

De uma forma ou de outra, essas mulheres lutavam para ganhar seu sustento — e é daí que vem o nome ganhadeiras. Essas histórias fazem parte da vida das famílias da região. As ganhadeiras cresceram vendo as mães no trabalho, e mantêm viva uma tradição que vem de mais de 100 anos atrás. 


Foi com a intenção de divulgar essa cultura que surgiu o grupo As Ganhadeiras de Itapuã, e é essa a história que o enredo da Viradouro vai contar no carnaval 2020! 💛 Pronto para conferir a análise dessa letra incrível? 

Ora yê yê ô oxum! Seu dourado tem axé
Faz o seu quilombo no Abaeté
Quem lava a alma dessa gente veste ouro
É Viradouro! É Viradouro!

No Candomblé e na Umbanda, Oxum é a orixá do amor, da ternura e da riqueza. Ela também é a rainha da água doce, dos rios e cachoeiras, por isso a música começa se referindo a ela antes de citar a Lagoa do Abaeté.

Ora yê yê ô oxum é um cumprimento que significa olha por nós, mãezinha. 


Já o axé representa a força sagrada de cada orixá. Para as pessoas que fazem parte de religiões de matriz africana, é comum cumprimentar os outros com desejos de axé, tido como sinônimo de luz e energias positivas.

Os quilombos, por sua vez, eram lugares onde os escravizados se escondiam depois de fugir das fazendas, engenhos ou feitorias. Eles se tornaram comunidades muito fortes, que contribuíram muito para a preservação de alguns aspectos da cultura negra no Brasil.

Na música, a referência é à Lagoa do Abaeté, citada como um quilombo por ser um lugar de libertação, onde as mulheres trabalhavam para comprar a própria liberdade. 


Por fim, a primeira estrofe faz um paralelo entre duas atividades das ganhadeiras: lavar a roupa na beira do Abaeté, e lavar a alma, cantando as tradições de seu povo para o país inteiro.

Levanta, preta, que o Sol tá na janela
Leva a gamela pro xaréu do pescador
A alforria se conquista com o ganho
E o balaio é do tamanho do suor do seu amor
Mainha, esses velhos areais
Onde nossas ancestrais acordavam as manhãs
Pra luta sentem cheiro de angelim
E a doçura do quindim
Da bica de Itapuã

A segunda estrofe nos mostra que a rotina das ganhadeiras começa cedo e que o trabalho pela alforria é duro. 

O que os primeiros versos nos dizem é que elas precisavam sair cedo para buscar e preparar o que iriam vender. Xaréu, citado no segundo verso, é um tipo de peixe muito comum na região Nordeste. 

A história nas areias da praia de Itapuã é antiga e várias gerações de ganhadeiras já passaram por lá, enquanto a bica de Itapuã era o principal ponto de encontro das ganhadeiras. 

No caminho até lá, se misturavam o cheiro das quitandas com o odor forte das árvores de angelim, um tipo de madeira da Floresta Amazônica muito usada na fabricação de móveis.

Camará ganhou a cidade
O erê herdou liberdade
Canto das Marias, baixa do dendê
Chama a freguesia pro batuquejê

Camará é um tipo de arbusto, e também é uma forma de se referir aos capitães do mato, homens das fazendas que eram encarregados de ir atrás dos escravos fugidos. Já o erê é um conceito do Candomblé que se refere ao lugar de interface entre o iniciado e seu orixá.

O canto das Marias se refere às muitas mulheres que fazem parte da comunidade das ganhadeiras. Já a baixa do dendê é uma localidade famosa dentro do bairro de Itapuã.

O canto das ganhadeiras chama os fregueses para participar do batuquejê, aquele canto animado acompanhado de percussão e muita dança.

São elas, dos anjos e das marés
Crioulas do balangandã, ô iaiá
Ciranda de roda, na beira do mar
Ganhadeira que benze, vai pro terreiro sambar
Nas escadas da fé
É a voz da mulher!

Essa estrofe é uma exaltação ao papel das mulheres ganhadeiras, que fizeram de sua atividade muito mais do que um trabalho. Por meio do canto e da dança, elas resgataram uma cultura inteira.

Xangô ilumina a caminhada
A falange está formada
Um coral cheio de amor
Kaô, o axé vem da Bahia
Nessa negra cantoria
Que Maria ensinou

Xangô é o Orixá justiceiro, que castiga os maus e protege os bons. Já a falange é uma espécie de exército, uma tropa. Kaô, o axé vem da Bahia é uma forma de saudar Xangô. Portanto, a estrofe pede a proteção de Xangô ao bando das ganhadeiras, que cantam a cultura negra ensinada por Maria. 

Ó, mãe! Ensaboa, mãe!
Ensaboa, pra depois quarar

Pra encerrar, a letra volta a fazer referência às lavadeiras e à atividade de lavar e quarar a roupa. Uma tradição que faz parte da cultura não só em Itapuã, mas em todo o Norte e Nordeste do Brasil. 💙


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